quinta-feira, 3 de maio de 2012

O fator etílico


      O consumo de bebidas alcoólicas está verdadeiramente democratizado em nosso país. Homens e mulheres já bebem em igualdade, assim como jovens, idosos, e crianças (considerada a crescente incidência de casos de coma alcóolico nessa faixa etária), tem cada vez mais acesso ao “mé”.[1]
Apesar das leis secas, da fiscalização de redes largas, da hipocrisia dos instrumentos de comunicação de massa, de forma geral, o que se vê é uma nação que faz jus a mais um dos seus muitos títulos vergonhosos: o de ter uma das populações mais etílicas do mundo.[2]
A marvada é poderosa mesmo; que néctar dos deuses é esse que, entre porres e caretas, encanta e transtorna os mais diferentes paladares, sem distinção de classe social, raça, religião, ou convicções outras que sejam, fazendo parecer que isso não é problema, mas diversão?
Um dos mais graves problemas de saúde pública é também um dos mais sérios problemas das famílias. Não adianta resmungar, ou acusar-me de puritano (palavra, aliás, muito pouco apropriada, em função de seu significado original), ou até mesmo dizer indignadamente que Jesus também bebia, os fatos são inquestionáveis; grande parte das tragédias (afogamentos, acidentes de trânsito, brigas, mortes, suicídios, violência doméstica, sem precisar mencionar doenças) está diretamente associada ao consumo excessivo de álcool.
Nesse contexto, a prudência é a primeira que tomba, apesar de não se entregar à bebedeira. Motoristas idiotizados, gestantes irresponsáveis, doentes inconsequentes, iracundos autoindulgentes, bebem todos no mesmo copo e arrotam a morte de inocentes, postulando álibis de liberdade individual e prazer em ressacas sem dor de consciência.
Rotular os bêbedos como doentes não resolve o problema. Arrochar leis muito menos. Estamos diante de uma grande ponta de iceberg, cuja massa submersa é infinitamente maior.
A alma não tem forma de alambique para ser preenchida com bebida, e a vida não se resolve em botequins.  
Tudo começa em família. O primeiro gole corre goela abaixo sob a conivência de quem deveria dar exemplos de sobriedade para a vida.
Construir uma sociedade melhor implica em diminuir a importância do fator etílico. Abstinência não é palavrão, é uma boa forma de preparar gerações com equilíbrio para lidar com frustrações, problemas, tristezas, e outras realidades tão evidentes quanto a vida.
Fugir pelos gargalos de euforia é o apelo fácil à felicidade artificial e fugaz. Buscar em Deus o sentido para uma vida plena é o que nos aconselham as Escrituras.  Beber sem moderação, só se for da água da vida, essa sim, verdadeira fonte de felicidade. “...eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” (João 10:10b).



[1] A cachaça é tombada como patrimônio histórico e cultural deste nosso Brasil. Essa palavra tem cerca de mil sinônimos em nossa língua.
[2] Segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (SINDICERV), o brasileiro consome anualmente mais de 10,3 bilhões de litros da bebida. Este número coloca o Brasil no quarto posto entre os maiores consumidores de cerveja do mundo.



A excelência acima dos dons

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Mentes outonais


Prenunciado pelo equinócio, a estação outonal, de mudanças climáticas e paisagens em constante movimento, que inspiram artistas de todos os tempos e estilos, é mais do que um chamado ao inverno, constitui-se metáfora riquíssima sobre as transformações da mente em busca da maturidade.
Árvores quase desnudas, folhas amareladas caídas em atapetamentos naturais, instabilidades e agitação nas águas dos céus e da terra, formam paisagens de melancolia e introspecção nas estações da subjetividade, remetem a simbolismos profundos de renovação.
A exuberância de vida da natureza, em suas rotinas de perfeição e exceção, é um aplauso do Criador à sua criação maior, homem e mulher, que nascem, vivem e morrem, sob o estigma dos ciclos biológicos e espirituais.
Nesse fôlego circular, perder o brilho e a cor é percalço inevitável. A busca de significação é um remoinho alucinado que desveste a folhagem da alma para humilhá-la até que se renove.
A frieza dos ventos que assobiam insucessos fustiga o íntimo sem piedade, vergando-o em direção ao reconhecimento da soberana vontade divina.
O signo da finitude, a morte, ruge raivosamente sua reivindicação de maternidade da beleza[1], fazendo coro com a verdade harmônica do Evangelho – deixar de existir para viver eternamente, em Cristo.
 Os outonos da vida são tempos de nostalgia, sem dúvida, mas de renovação de mentes comprometidas com a adoração integral (cf. Romanos 12:1).
Neles estão os dias em que as paisagens dos corações revelam compreensão e reconhecimento resignado do agir soberano e misericordioso de Deus (Daniel 2:21), matizados pela esperança de que tudo reverdecerá nas primaveras.
Renovar a mente é um imperativo bíblico (cf. Romanos 12:2), no qual estão figuradamente implícitos os movimentos da natureza. Mentes outonais são aquelas que, caídas, humilhadas, e até mesmo quase mortas, renovam-se pelo poder de Cristo, a cada dia, dando a Ele glória com vidas que frutificam. O outono climático é um lembrete que a estética da natureza faz chegar à mente para dizer que é tempo de renovação de compromissos e propósitos para com Deus.


[1] Cf. Wallace Stevens

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Senhor é o Pastor


        Os salmos fazem parte de uma antologia universal do que há de melhor em literatura poética. Para muitos servem apenas para alimentar crendices religiosas (como a conhecida prática da Bíblia aberta no Salmo 91), mas para outros tantos são palavras vivas de confiança.
            Calvino bem definiu o caráter do livro, vendo nele uma representação completa da alma humana, visto que não há sentimento humano que não seja mencionado em suas linhas.
            Mais do que isso, outros teólogos tem vislumbrado nas mensagens dos salmistas provas incontestáveis da ação de Deus em favor do indefeso, do injustiçado e do perseguido. E se Ele não está indiferente, nossa convicção se renova na esperança de que nossas forças e nossas necessidades serão supridas na medida da Sua soberana e poderosa vontade nas melhores ou nas piores circunstâncias.
            O salmo 23, o mais lido de todos, tem sido cantado e recitado em orações chorosas, nos corredores da morte, nos últimos suspiros de vida, em crises e momentos de desespero, mas também na serenidade de corações em repouso. Seu conteúdo apela às mais profundas sensibilidades porque se baseia em duas figuras que representam as maiores necessidades humanas: liderança e acolhimento. Necessidades nas quais subjazem outras, não inferiores, mas complementares, tais como provisão, descanso, cura, propósito, livramento, proteção, disciplina e relacionamentos.
            Nada mais distante da realidade alucinada dos grandes centros urbanos do que o bucolismo da figura do pastor. No entusiasmo de figurar a linguagem para descrever Deus, Davi encontrou na sua experiência de vida uma ideia mais do que abrangente: o pastor de ovelhas,  em que estão reproduzidas as qualidades do cuidado constante, compatíveis com a atenção que grandes líderes precisavam reunir no exercício de suas funções, tal como os reis daquele tempo que se autodenominavam pastores de suas nações.
            Cheio de admiração pelo Deus que se revelou pessoalmente, o pastor poeta não hesitou em chama-lo “meu”, traduzindo no pronome não o sentimento egoísta de posse, mas o traço relacional mais do que característico do Criador.
            Na estabilidade desse relacionamento Davi se sentiu suprido, e declarou em palavras que reverberam por quase três milênios o contentamento de alguém que de nada sentia falta. Não há como não notar o descompasso dessa certeza com o olhar de incerteza do nosso tempo que a todo instante está voltado para o que não se tem. O apóstolo Paulo faria tempos depois uma paráfrase não intencional, em Filipenses 4:19, dizendo: “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades.” 
            O pastor ideal, supridor de todas as coisas, não deixa faltar o descanso em pastos verdejantes e águas tranquilas, representando com essas imagens a riqueza do alimento para a alma (cf. Hebreus 5:12-14; 1 Pedro 2:2). O pastor supremo dá refrigério e restauração para ovelhas que, mesmo vivendo ciclos de desgaste e renovação, sabem que o descanso definitivo está preparado para a eternidade.
            O pastor eterno também dá direção e propósito, tirando-nos do precipício do acaso, das cavernas do vazio interior, e das florestas do medo. Ele guia suas ovelhas, porque por amor do seu nome prometeu fazer isso.
            A sequência da narrativa do salmo é também pictórica, onde cada quadro retrata as circunstâncias de uma viagem, na qual o pastor é ainda o guia que zela pelo destino de quem conduz e por sua própria reputação.
            Conta-se que em uma viagem aérea, onde grandes turbulências tiravam a paz dos passageiros e tripulantes, um menino chamava a atenção por sua tranquilidade, a ponto de intrigar seus vizinhos de assento. A certa altura da viagem, um desses, sem poder conter sua admiração indagou o menino sobre como poderia estar tão tranquilo em situação de tanto perigo. A resposta do pequeno foi curta e segura: “meu pai é o piloto”.
            Se Davi fosse o menino responderia na mesma forma. As respostas dos salmos refletem essa atitude, como no capítulo 55, versículo 22: “Confia os teus cuidados ao SENHOR, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abalado”. Apesar dessa certeza, não há nas palavras do salmista ingenuidade a ponto de pensar que ele estaria livre de todo e qualquer sofrimento. A provisão divina para a tribulação não vem de um interruptor celestial onde as lutas cessam a um toque, mas surge de promessas de proteção e disciplina confortadora. Os vales da sombra da morte são lugares horríveis da nossa jornada nos quais muitas vezes ninguém caminha conosco, exceto o Pastor, o próprio Cristo, que andou por todos os nossos vales e os conhece mais do que ninguém. A sua vara, longe de causar medo, produz segurança, pois previne que venhamos a cair em perigos espirituais que poderiam causar nossa destruição (Mateus 6:13).
            Ainda sob a perspectiva da viagem, a ovelha tem acrescentada à sua condição peregrina a bênção do acolhimento pelo pastor anfitrião, que espelhando os mais dignos costumes da antiguidade oriental revela sua gentil hospitalidade, com mesa farta, óleo sobre a cabeça, e um cálice transbordante. A esperança está visível em cada aspecto dessa bondade, a provisão espiritual da presença de Deus, mesmo em face de inimigos, a unção espiritual, e as bênçãos transbordantes de alegria, derramadas até à eternidade.
            O fim da “viagem” não poderia ser outro. Davi conclui que o amor leal de Deus o seguiria por toda a sua vida e deseja ardentemente habitar na casa do Senhor para sempre. Nesse desejo, o que está em primeiro plano não é o local, sua arquitetura ou sua geografia, mas o simbolismo da presença do Todo Poderoso e do relacionamento com Ele. Retornar permanentemente ao convívio com Deus, à sua santa presença, é a aspiração maior das ovelhas, dos hóspedes, dos crentes, que conhecem o seu pastor (João 10:11,14).
            Contou alguém que em uma congregação, duas pessoas foram convidadas a recitar o Salmo 23. A primeira, um jovem arrogante, o fez com elegância, ímpeto, e excelente oratória. A segunda, um idoso senhor, recitou cada palavra vagarosamente, como se estivesse narrando a história de sua própria vida na companhia do Pastor. Este último, naturalmente, produziu na igreja grande comoção, pelo realismo da Bíblia em sua vida.
            Que Deus nos ajude a ler e compreender esta porção da Palavra de Deus com profundidade, a ponto de recitá-la como uma breve autobiografia, repleta de confiança no Pastor que é Senhor.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Viciado em previsões


A preferência por temperaturas amenas e até mesmo baixas, e a pouca tolerância com o calor, me fizeram acompanhar as previsões meteorológicas com regularidade. Daí para o vício foi um caminho curto. Meus filhos logo me alertaram sobre isso. Desde então, não apenas admiti (e fiz cessar) minha dependência como passei a notar o alto índice de previsões não realizadas, e de frustrações decorrentes dos humores e vontades desencontrados com as expectativas, de um modo geral. Passei também a observar a pressão descomunal que faz sofrer e nos assedia, cotidianamente, com os mais variados tipos de análises e previsões, do tempo às cotações das bolsas de valores e mercados de futuros, dos resultados de jogos esportivos a jogos de azar, das estatísticas, das análises políticas, econômicas, prognósticos, diagnósticos, estatísticas, retrospectos, etc... Descobri que o meu inofensivo vício era uma pequena amostra de um mal que tomou conta do mundo, a dependência de previsões; um mercado arquibilionário lastreado em complexas projeções de especialistas; na verdade, um comércio de fumaça, de obsolescências e desgraças programadas, de ética tão sólida quanto neblina, que enriquece a muitos, mas que mascara uma realidade da existência com a qual poucos conseguem lidar adequadamente – nossa única certeza é ter que lidar permanentemente com incertezas. O futuro não está à venda. Há certezas sim, mas elas não estão disponíveis nos Bloombergs da vida. Estão na Palavra de Deus, e disponíveis, de graça e pela graça. O melhor prognóstico sobre nossas próprias vidas está nas palavras inspiradas de um escritor bíblico – “Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo.” (Tiago 4:13-15) Desprezar a segurança de um futuro com Deus é optar por desaparecer como fumaça (Salmos 37:20). Nossa única dependência deve ser do nosso Criador. Basta um sopro para desfazer a cortina virtual de pessimismo ou otimismo que nos rodeia, e enxergar com clareza que a previsão mais importante de todos os tempos já foi cumprida – Cristo morreu na cruz pelos nossos pecados e ressuscitou para que tenhamos vida eterna com Ele. Viver coerentemente com essa realidade nos faz livres do vício das previsões e nos torna mais comprometidos com um viver agradável a Deus.